domingo, 9 de março de 2008

Deus e o Titanic...

Estava pesquisando na internet sobre o naufrágio do Titanic, queria saber que fatores fizeram com que um navio "inafundável" viesse a afundar.

Em sua viagem inaugural um de seus construtores disse: "Nem Deus Afunda o Titanic". Ele foi projetado para ser um navio insubmergível. Como ele afundou então ?

Adentrei diversos fóruns e algumas comunidades do orkut. Me espantei com a qualidade de respostas das pessoas. Determinadas comunidades não podem e nem devem ser usadas como fonte de pesquisa, devido ao elevado grau de incautos. Mas isso só podemos saber na prática. Vamos destacar as piores asneiras com que me deparei:

As piores do Orkut: (ignorem o internetês)

- "nem Deus afunda esse navio"
axo q foi por isso q o navio afundo..........


- Com certeza foi por falarem: "Nem Deus afunda esse navio".
Mexer com Deus é coisa séria, com Deus não se brinca.


- axo q foi pq akele imbecil do exnoivo da rose disse:
nem deus afundaria este barco!
eu acho qdeus se irritou e afundou o navio.
matando mas de 1500 pessoas afogadas na data do meu aniversario!
beijos

As piores do Yahoo respostas (infelizmente estas porcarias apareceram no topo das minhas pesquisas do Google:)

- Deus criou o homem segundo a sua himagem e semelhança.mais o diabo tentou o homem e este caiu na nas palavras do diabo e se tornou pecador e imperfeito,desde aquele momento em que o homem se torunou imperfeito so fez e continua fazendo coisas imperfeitas, de modo que o titanic foi apenas mais uma das construções do homem o que para o criador é mais um brinquedo.(Nada é perfeito se não o criador, e para ele nada é impossivél)


- Pq Deus fez questão de mostrar que com Ele não se brinca....


- porque els foram desafiar à DEUS! que criou tudo que existe no universo.


- Justamente porque desafiaram Deus!!!


Chega !!! É desapontador quando estamos procurando explicações racionais para os fatos e nos deparamos com tantas pessoas opinando besteiras em cima de besteiras. Que conclusões podemos tirar destes comentários acima ?

Fica claro que as pessoas acreditam em um Deus cruel e vingativo que pode ceifar a vida de milhares de pessoas apenas para provar que as mesmas estão erradas. Este mesmo deus assemelha-se a uma pessoa sem muita auto-estima que precisa provar o quanto ela é poderosa. Que tipo de Deus é este que dá tanta importância para os comentários de simples mortais imperfeitos ? Esta linha de raciocínio não faz o menor sentido.

Fica óbvio também que um dos combustíveis que movimenta a fé é o medo ! o terrorismo ! a ameaça ! o castigo ! Parece que as pessoas não vêem problemas em acreditar num deus tirano, violento e castigador. É razoável para você um deus de amor matar 1500 pessoas apenas porque estas o desafiaram ? Você mataria o seu próprio filho por ele o desafiar ? Creio que não... então porque você acha razoável que deus o faça ?

Lançarei um desafio aqui e agora: eu quero que raios caiam na minha cabeça neste exato momento ! Deus é um fraco e um incapaz !

Hoooooo !!! como ele tem coragem de fazer isso ?? Simples: eu não preciso viver temendo o imaginário. Eu não me deixo aterrorizar por ameaças de mentira. Eu não preciso ficar me escondendo temendo o invisível. Não me acomodo. Se este deus sai matando geral cada vez que alguém o desafia eu não estarei mais aqui para criar novas postagens. Se esta é a regra ela não há de falhar. Basta um pouco de inteligencia para saber o que vai acontecer.

Não tem nada a ver com deus. O Titanic afundou porque durante o naufrágio 5 dos seus compartimentos foram inundados. Ele poderia flutuar com até 4 deles tomados pela água.

O grande problema é que ele foi construindo às pressas e não houve tempo o suficiente para realizar todos os testes necessários. Durante a viagem o Titanic navegava com força total, era uma tentativa de se chegar ao destino antes do previsto para impressionar a todos.

Ele era relativamente grande para um leme muito pequeno e estava muito rápido. o iceberg foi visto muito tarde. O choque foi inevitável. Como muitos de seus compartimentos foram afetados ele não teve condições de se manter flutuando.

Respostas são simples para quem se propõe a encontrá-las. Mas se você ainda está acreditando no deus castigador vamos ver se você tem razão: Se não houverem mais novas postagens neste blog significa que fui castigado severamente por ele. Vamos ver do que o bastardinho é capaz.

sexta-feira, 7 de março de 2008

O Segredo do Segredo

O Segredo Escondido de “The Secret”: Sobre tudo aquilo que os homens bem sucedidos e os autores capitaneados por Rhonda Byrne não querem que você saiba !!

Por Arthur Meucci

Crítica Filosófica

Parte I – As leis ocultas do sucesso

Cheguei neste fim de semana na minha cidade de criação, Peruíbe. Vim passar as festas de fim de ano na casa de meus pais como faço desde que me conheço por gente. Nestes últimos seis anos sinto que cada vez mais estas visita são uma experiência antropológica singular. Saio do “Olímpio” da Universidade de São Paulo, dos meus círculos sociais, e sou imerso no que parece uma outra realidade paralela. Volto ao mundo da dita “normalidade”, onde se vive o dia-a-dia comum da maioria dos brasileiros. Se nos meus círculos em São Paulo o mundo parece progredir em relação ao conhecimento, a consciência, e a estabilidade, em Peruíbe vejo que esta percepção não é universal. O mundo muda com radicalidade. Cada vez mais as novas modas dão formato ao mundo. Cada vez menos as pessoas têm consciência do que assistem nas mídias e do que lêem na lista de “best sellers” (quando são capazes der ler…). Sinto a todo tempo um vazio gerado no mundo ao meu redor devido a uma estagnação do progresso econômico, educacional e humano.

Todo ano novas modas tomam conta de ocupar a vida das pessoas. Este ano uma nova “onda” surgiu, e desta vez me atingiu em cheio. Até pouco tempo ninguém dava realmente importância para a filosofia, e muito menos para seus estudantes. Quem é filósofo sabe do desprestigio que recebemos de nossa sociedade, e já estamos habituados a este estado de limbo social no qual somos colocados. Pois bem, desta vez inexplicavelmente pessoas, conhecidas ou não, me paravam na rua querendo conversar. Perguntavam se eu tinha feito filosofia e se eu poderia lhes dar alguma “revelação”. O entusiasmo das pessoas me constrangia. O que diabos estava ocorrendo? Estava há menos de doze horas na cidade e parecia um político famoso no qual todos vêem me pedir favores e conselhos. Será que minha aparição em alguns poucos programas de TV neste ano causaram isso? Improvável, pois as pessoas pediriam autógrafos e não conselhos e indicações de livros.

Após um dia de inquietações meus pais me revelaram o motivo de todas aquelas manifestações estranha. Este fenômeno foi gerado por um novo discurso ideológico trazido por um livro escrito pela filosofa americana Rhonda Byrne, intitulado “The Secret – O Segredo”, publicado pela Ed. Ouro, e por um filme com o mesmo título. Uma nova gama de livros publicados por filósofos, físicos, e psicólogos americanos, denominados filósofos do “Segredo”, ou da “Lei de Atração”, disseminou um discurso ideológico e uma mudança de comportamento tão grande que eu não tinha visto igual desde a década de noventa com o crescimento repentino do AMWAY (American Way of Life). Tive a oportunidade de ler o livro de Rhonda Byrne e de Michael Loiser, intitulado “A Lei da Atração”, Editora Nova Fronteira, além de assistir o filme.

Os livros, apesar de possuírem muitas páginas e serem escritos por filósofos e físicos, tinham poucos textos e utilizavam uma linguagem cotidiana. O estilo de escrita e de edição possibilitava até mesmo pessoas pouco instruídas lerem e entenderem. Li os dois livros em menos de quatro horas. Creio que não houve dificuldades de traduzir os livros, mas certamente houve um grande esforço dos diagramadores em transformar vinte páginas de texto corrido em duzentas páginas de livro. Rapidamente percebi que esta nova “corrente filosófica” não tinha nenhuma consciência ambiental.

Após assistir o filme as pessoas ao meu lado ficaram ansiosas para saber o que eu iria dizer. Esperavam uma palavra de sabedoria, ou pelo menos uma avaliação positiva de minha pessoa que reforçasse suas crenças. Fui a cozinha, peguei um copo de café amargo, sentei, cruzei as pernas, fiz um ar de arrogância típico dos intelectuais e disse: Como eu suspeitava o filme não revelou os segredos ocultos sobre a “lei de atração”. A autora não revelou as leis mais intrínsecas que possibilitam o sucesso dela e dos milionários bem sucedidos. Depois de dizer tudo isso, com tom de obviedade, me calei.

Em toda a minha vida nunca causei tanto frisson nos meios sociais que circulo quanto desta vez. A minha observação na cozinha da casa de meus pais circulou até os mais distantes confins da cidade. Todos me questionavam: Que segredos são estes que eles não revelaram? Desde o dia de Natal até este momento passo o meu tempo explicando para as pessoas que me procuram algumas das “leis ocultas” que possibilitam o sucesso da “lei de atração”. Como prometido, disponibilizo para as pessoas duas das leis ocultas em “The Secret” que Byrne e os demais não querem contar. As leis que vou tratar neste primeiro post sobre o assunto são as “Lei da Alienação” e a “Lei da Mais Valia”.

Os autores se colocam uma questão inicial nos livros e no filme. Eles perguntam: Por que desde os tempos antigos somente uma minúscula parcela da população é rica e bem sucedida, tem tudo o que deseja, e a grande maioria dos homens vivem de maneira ruim? A resposta deles para isso é: Desde os primórdios da civilização uma minúscula parcela da população descobriu a chamada “lei da atração”. Em linhas gerais eles definem esta lei, “Atraio para a minha vida qualquer coisa à qual dedico atenção, energia e concentração, seja em termos positivos ou negativos” (LOSIER, 2007, p. 25). Na verdade a filosofia, desde o século XIX, já desvendou as verdadeiras leis para este sucesso. As leis que movem os dominantes do mundo são anteriores e mais profundas do que a lei de atração. A primeira lei do sucesso, que um indivíduo precisa conhecer para se dar bem, é a Lei da Alienação. A filosofia entende por alienação o processo pelo qual um homem se aliena, ou seja, deixa de ser dono de si mesmo e, conseqüentemente, do que produz. Um trabalho alienado é um trabalho cujo seu fruto não pertence a quem produz, mas a uma outra pessoa: Seu senhor, seja o escravocrata ou o patrão.

Como se aplica a “Lei de Alienação”? É simples. O primeiro passo para ser bem sucedido é, primeiro, passar a ser dono do que você mesmo produz. Se você fizer pão, software, costura, ou der aula, você deve ganhar exatamente pelo que produz e não outra pessoa. O segundo passo é achar outras pessoas que se submetam ao seu domínio. Ou seja, encontrar empregados que trabalhem para você. Eles não devem receber pelo que efetivamente fazem, e sim ganhar um salário. Você não deve manter uma relação de “pareceria” ou de “sócio” com estas pessoas, e sim de “senhor/patrão” e “servo/empregado”.

Após aplicar a “Lei da Alienação” você deve aplicar uma segunda lei, a “Lei da Mais Valia”. Segundo esta lei deve haver uma grande diferença entre o salário pago ao seu empregado e a riqueza que ele produz. A idéia é: Uma vez que você domina seu empregado pela Lei da Alienação você deve explorar esta pessoa ao máximo fazendo com que ela trabalhe muito e ganhe pouco. Você simplesmente deve oferecer um salário para que ele se mantenha vivo, tenha um mínimo de conforto, e faze-lo crer que o trabalho que você lhe ofereceu é um favor. Mas como estas leis funcionam na prática?

Para exemplificar o funcionamento delas relatarei um caso que realmente aconteceu. Tenho um parente que é padeiro numa padaria de alto padrão em Peruíbe. Ele seguia fielmente os mandamentos do “Segredo”, da “Lei da Atração”, e passou a admirar seu patrão que sem dúvida é um homem de sucesso. Ele, como muitos, começaram a admirar os grandes capitalistas como Abílio Dinis, Bill Gates, e outros que são tidos como sacerdotes que conhecem os segredos da Lei de Atração e aplicam.

Para revelar os “Segredos” eu prometi desvendar as artimanhas que seu patrão usava para ficar rico. Pedi para que ele, brevemente, me relatar sua produção mínima diária na padaria. Contar como ele trabalha e o que ele produz num dia de baixo movimento.

Ele me relatou que em um dia fraco, de não temporada, ele levanta às 4 horas da manhã, entra no serviço às 5 horas em ponto, e tem que fazer 1.500 pães, 100 baguetes, 30 sonhos, 60 croissant e brioches, 100 pães de queijo, além de outros quitutes como língua de sogra, esfiras, tortas, bolos etc, antes do patrão chegar. Sentei com o meu parente padeiro portando uma folha de papel, um lápis, uma borracha e uma calculadora. Disse que somente estes instrumentos seriam necessários para decifrar a verdadeira lei oculta do “Segredo” – a chave para os vencedores. Pedi para ele imaginar um outro sistema de ganho onde ele trocaria seu ordenado mensal de R$ 800,00 por um cálculo de ganho pessoal através de um mínimo sobre cada produto que produz. Disse: Pense num sistema onde você ganhasse liquido (descontado encargos sociais) R$ 0,03 por cada pão, R$ 0,06 por baguete, R$ 0,15 por sonho, R$ 0,18 por brioches e croissants, e R$ 0,07 por pão de queijo que produz. Para tornar a coisa mais simples não contabilizamos suas outras produções. Depois verificamos a tabela de preços.

Nesta padaria de alto padrão um pão de 50 gr. custa R$ 0,35 (trinta e cinco centavos), uma baguete de 100 gr. R$ 0,70, um sonho R$ 1,50, croissants e brioches R$ 1,80 cada, e o pão de queijo R$ 0,70.

Com esses dados em mãos pedi para ele fazer alguns cálculos no intuito de analisar e achar o “segredo”. Partimos das variáveis mais pessimistas possíveis. Estamos calculando segundo uma média de um dia ruim de vendas, e depois estendemos essa situação para o período de um mês. Além disso, eu o fiz observar que sua média de ganho por cada produto que produz varia entre 6% e 10% do preço final. Afinal, ele está preso a Lei de Alienação e não se vê dono do que produz, logo não consegue se ver exigindo mais. Começamos contabilizando o seu ganho e depois o da padaria sobre estes itens específicos.

* Padeiro
Ganho diário:
Pão R$ 45,00 (0,03), baguete R$ 3,00 (0,06), sonho R$ 4,5 (0,15), croissants e brioches R$ 10,80 (0,18), pão de queijo R$ 7,00 (0,07).
Total por dia: R$ 70,30 (setenta reais e trinta centavos)
Em 24 dias:R$ 1.687,20 (mil seiscentos e oitenta e sete reais e vinte centavos)

* Padaria (Descontado a porcentagem do padeiro, e sem calcular a média de 23% de impostos e encargos sociais – Obs: setores alimentícios têm impostos reduzidos).
Ganho diário:
Pão R$ 480,00 (0,32), baguete R$ 64,00 (0,64), sonho R$ 40,50 (1,35), croissant e brioches R$ 97,20 (1,62), pão de queijo R$ 63,00 (0,63).
Total deste lucro específico por dia: R$ 744,70
Total deste lucro específico em 24 dias: R$ 17.872,80

Primeiro eu lhe mostrei a “Lei da Alienação”. O fiz comparar seu salário de R$ 800,00 com a mísera porcentagem de lucro que ele poderia ter sobre o fruto de seu trabalho. Inicialmente ele mostrou indignação com os cálculos. Disse: “- Não pode ser só R$ 1.687,20. Esta é uma média muito baixa. Não existe. Eu produzo, num mês, uma média maior do que esta sem contar as tortas, bolos e outras coisas. Provavelmente eu poderia tirar uns R$ 3.000,00 nestas condições”. Logo depois deste discurso ele começou a enxergar as duas leis ocultas. Ele percebeu que trabalhava “quase de graça” para seu patrão. Ele percebeu que trabalhava muito, mas era o dono da padaria que recebia os lucros sem fazer muito esforço. O Segredo da Alienação se revelou.

Em seguida eu o fiz ver a “Mais Valia”. Disse: Veja bem o quanto você ganha sendo um alienado do senhor capitalista. Você ganha R$ 33,33 por dia como um escravo assalariado do sistema. Se você mendigasse uma mísera porcentagem por todo o trabalho que produz sozinho ganharia diariamente, na pior das hipóteses, R$ 70,30 por dia, R$ 1.687,20 por mês. Mais do que o dobro como assalariado. Mesmo assim, recebendo esta ridícula parte do que produz, o patrão ganharia R$ 744,70 pelo seu trabalho diário, e em vinte quatro dias de exploração ganharia um total de R$ 17.872,80. O padeiro olha abismado e confessa: “- Sou eu quem encomenda às compras de material, e num período como este ele não chega a gastar mais do que R$ 3.500,00 por mês com os ingredientes.” Ele compara os R$ 13.000,00 (descontando os ingredientes) de lucro do patrão, só com os pães que ele produz, com os R$ 1.687,20 que ele poderia mendigar, e depois com os R$ 800,00 de salário.

Mostrei, nesta primeira reflexão, as duas leis ocultas necessárias para o sucesso. Segredos que Byrne e os demais capitalistas dominantes não querem que você saiba. Mas agora você já sabe: Para se ter sucesso é preciso, primeiro, ser “senhor” de outros homens e depois explora-los o máximo possível. Nunca pagar pelo que o trabalho dos outros realmente vale. Se você ainda quiser pode pedir invocando a “Lei da Atração” que lhe transforme num alienador de homens e detentor dos trabalhos de outrem.

Parte II – Será que o Universo realmente conspira a seu favor?

Eu esperava postar a segunda parte de minhas reflexões sobre “O Segredo” neste sábado, dia 05/01, como tinha programado para o andamento do blog. Porém, o sucesso da reflexão anterior e a grande demanda pela segunda parte me fizeram antecipar. Quero agradecer aos meus novos amigos virtuais que gostaram do material do site e divulgaram pelos quatro cantos. Em especial ao Marco Aurélio, Mônica, Fernando Felix, e Suely da comunidade de Filosofia do Orkut.

Como havia previsto há alguns dias, ao chegar a Peruíbe, a sensação de parecer um antropólogo estudando os habitantes de minha cidade de criação aumentam dia após dia. Sinto-me o próprio Levi Strauss estudando uma sociedade indígena. Um pouco perdido, achando tudo muito exótico, novo, e buscando concatenar explicações racionais para dar sentido a realidade que se apresenta (como se realmente houvesse uma explicação racional para a realidade…). São os efeitos de uma trajetória existencial dedicada aos estudos abstratos e a academia.

Alguns de meus professores reproduzem constantemente a frase, “Se você se prender na realidade cotidiana, se deixar levar pela aparência vigente, e não buscar um olhar intelectual sobre o mundo, você vai emburrecer”. Concordo em parte com esta afirmação. Este “emburrecer”, no sentido mais figurativo dado a palavra, é um fenômeno que ocorre gradativamente com o indivíduo depois de formado que abandona a regularidade de seus estudos. Porém, a minha experiência formulou uma segunda máxima complementar, “Se você der demasiada importância aos estudos, e se fechar nos muros da universidade, vai se tornar um idiota”. O termo idiota não foi empregado no sentido figurado, mas no literal mesmo. Reforço o caráter etimológico da palavra, pois idiota vem do grego e tem o sentido de ilhado. Um idiota não designa somente o indivíduo que é alheio às discussões que dizem respeito à política, mas também aos que se afastam do cotidiano da polis (cidade Estado).

Certas instâncias sociais nos induzem ao isolamento de nossa participação nas tomadas de decisão referentes ao corpo social e até mesmo da nossa vida. Estas forças que nos coagem operam de diversas formas. Às vezes se instauram como ditaduras políticas que impedem o exercício da atividade dos cidadãos, perseguindo os direitos e liberdades individuais. Outras vezes aparecem mascaradas com o rótulo de “democracia representativa”, onde um grupo da elite econômica consegue patrocinar suas próprias campanhas e se elegem para governar a população em nome do próprio povo. Este fenômeno ocorre, por exemplo, no Brasil, onde os representantes da elite se elegem, buscam seus próprios interesses, e limitam drasticamente a participação do cidadão nas tomadas de decisões políticas. A única participação “direta” se dá nas eleições, onde elegemos o membro da elite menos pior para nos governar.

Por fim, existem as instâncias ideológicas que são criadas para nos auto impor limites. Os aparelhos ideológicos usados pelos dominantes é o método mais eficaz para se dominar as pessoas, pois dispensa o uso da força física e um controle austero para manter o status quo. Para o leitor que quer ter sucesso na vida é indispensável conhecer o funcionamento do discurso ideológico. Certos discursos religiosos, os meios de comunicação, a escola, e os diversos elementos culturais são os produtores e reprodutores da ideologia dominante. Veremos aqui como Rhonda Byrne e os homens bem sucedidos, guardiões do “Segredo” (The Secret), utilizam os discursos empregados nos livros e no filme para diminuir a capacidade das pessoas em tomar decisões importantes, de relevância social, e também de agir para melhorar a própria vida.

Vamos colocar algumas perguntas iniciais para desvendar este novo segredo: Por que as pessoas não se conscientizam da exploração que sofrem pelas leis da “Alienação” e da “Mais Valia”? Como uma coisa que parece tão óbvia passa desapercebida? Vou mais além e pergunto: Como as pessoas, após serem esclarecidas sobre sua condição de exploração, não querem ou não aceitam reagir? A resposta é: São os instrumentos ideológicos de dominação. Frase complicada para uma questão tão simples. Vejamos, caro leitor, como ela opera no discurso do “Segredo”.

Para os autores da teoria da Lei de Atração as coisas no mundo acontecem devido a ação do Universo. Para os filósofos e físicos do Segredo nós somos um punhado de matéria composto de energia, igual a todo o Universo. Resumindo, tudo no Universo é energia. Somos energia em interação com outras energias. Destarte, todas as coisas possuem uma conexão. Quando a nossa consciência deseja algo, e pede, o Universo capta nosso pensamento e realiza o desejo. Por isso eles dividem as atividades do pensamento em várias camadas que começa na consciência, passa pela mente objetiva, depois pela mente subjetiva e por fim chegam na mente Universal. Isto se dá graças a uma conexão constante entres estas esferas mentais e o Todo do Universo.

Esta imagem é ilustrada pelo filme “The Secret”. Lá os indivíduos passam a mentalizar desejos positivos e negativos, depois há uma animação simples mas bonitinha onde a cabeça do indivíduo emite ondas de comunicação para o Universo. Temos a impressão que o cérebro é um dispositivo wirelles em conexão com o todo poderoso Senhor do Cosmos. Enquanto os maçons chamam Deus de “O Grande Arquiteto”, a filosofia do “Segredo” concebe, nas entrelinhas, uma entidade suprema como um “Grande Servidor do Universo”. A “Lei da Atração” seria nada mais que um comando dado ao Servidor para que o Universo realize o download e a execução da operação desejada. Na filosofia acadêmica costumamos chamar esta perspectiva de visão do mundo de idealismo.

O problema do conceito de idealismo é a sua imprecisão na história da filosofia. Este conceito pode ter vários significados distintos. Um grande filósofo chamado Nicolai Hartmann publicou um belo livro intitulado “A Filosofia do Idealismo Alemão”, e logo na introdução ele adverte o leitor para o perigo do uso do termo idealismo. O idealismo cartesiano é distinto do idealismo de Berkeley, que por sua vez não tem nenhuma relação com o idealismo kantiano, que também não tem nenhuma tangência com o idealismo de Hegel, e assim por diante. O conceito de idealismo pode se referir a coisas totalmente distintas ou mesmo opostas. Para estabelecer um mínimo de coerência vamos chamar de idealismo a perspectiva dialética onde todo o movimento do mundo ocorre para se realizar uma determinada idéia. O mundo, nesta perspectiva, é movido visando realizar idéias perfeitas. Todo o Universo progride em torno de um Ser perfeito que é imaterial. Hegel chama este Todo Absoluto de Deus. Nesta perspectiva a revolução francesa só foi possível quando o homem atingiu a idéia de democracia, o mercado só evolui quando a escravidão cedeu lugar a idéia de liberalismo, as mulheres passaram a ter participação na sociedade quando os homens conceberam a idéia de direitos iguais para ambos os sexos, e assim por diante. Quando o homem concebe uma idéia, e a deseja, todo o Universo conspira para realizá-la.

Esta concepção idealista, oculta na filosofia de “O Segredo”, acostuma os homens a se posicionarem passivamente em relação ao mundo que os cerca. Tira do sujeito a consciência de que sua vida e sua felicidade é um produto oriundo de suas ações e não de entidades concebidas fora dele. Seguindo esta perspectiva quando a existência é abalada por situações ruins isto se deve graças aos maus pensamentos. Porém, quando uma coisa boa acontece passa a ser fruto dos pensamentos positivos e do uso da lei de atração. Seguindo passo a passo as idéias e a prática desta filosofia o sujeito, aos poucos, para de reclamar da vida. Deixa de ver o que lhe incomoda e se coloca como passivo em relação ao mundo que o cerca.

Sinto em lhe informar, meu caro leitor, que o mundo não é movido pelas idéias. O universo não é tão mágico como querem que você pense. A prosperidade, a justiça e o bem estar não surgem por obra do acaso, do Universo, de um Ser supra-sensível, ou das suas boas ações na Terra. As coisas só começam a acontecer quando você realmente age buscando o que deseja. É o que diz o materialismo dialético. Assim como o conceito de idealismo, o materialismo tem significados diversos e por vezes conflitantes na história da filosofia. O emprego do conceito de materialismo dialético denuncia o lado perverso do idealismo dialético e nos mostra que o mundo não é movido por idéias e sim por ações. São as práticas humanas, práxis, o verdadeiro motor do mundo. Segundo esta perspectiva as revoluções não ocorrem no intuito de satisfazer idéias, mas por causa dos homens que se unem e agem para mudar suas situações. A conquista das mulheres não veio do debate de idéias, mas pela onda de protesto que fizeram, por sua importância em relação ao mercado de trabalho e o seu papel na sociedade política e de consumo.

O mundo só muda quando os homens tomam atitudes. A vida de uma pessoa não muda simplesmente por causa de uma idéia, ou na espera de alguém, ou algo, que mude. A existência só se transforma quando agimos para realizar o que queremos. Quando deixamos de confiar na esperança e no futuro incerto. A ideologia dominante, a mesma contida em “O Segredo”, torna o sujeito passivo em relação aos acontecimentos do mundo. No exemplo dado no filme sobre o homossexual que era humilhado pelos colegas de serviço, que sofria violência de um grupo na rua, e tinha problemas financeiros, a resposta oferecida foi “pensamento positivo”, “confiança”, “usar a lei de atração” e tudo se resolverá com o tempo. A resposta que deveria ser dada é “Faça alguma coisa!”. “Denuncie seus colegas de trabalho aos superiores, e se não resolver exponha publicamente a perseguição feita pela empresa”. “Exija um salário justo”. “Vá a policia e denuncie o grupo de agressores que o persegue na rua”. “Se filie, ou forme, um movimento de direitos”. “Mexa-se!”. Porém, é obvio que o sistema capitalista, tal como ele funciona, não vê essas atitudes com bons olhos. O que aconteceria se as pessoas exigissem todos os seus direitos, igualdade e justiça? O sistema entraria em colapso. O sistema de alienação e mais valia poderia desaparecer. Logo, é preferível agir como o homossexual do filme e fazer as pessoas esperarem que “tudo se normalize”, que o “tempo passe”, e que os homens “se conformem” com os pequenos ganhos que terão por serem pacientes.

Como membro da Escola Pessimista de Peruíbe tenho que lhe dizer, meu caro leitor, que o “Universo”, o “Mundo” que nos cerca, é para nós “dor e sofrimento”. Se o mundo fosse tão bom como dizem você não nasceria chorando. Para ser um homem de sucesso é preciso enxergar esta armadilha oculta no discurso dos filósofos do “Segredo” e criar coragem para agir. Quem deve esperar por um milagre do Universo são os dominados pelo sistema e não você que quer ser dominante.

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